
Caminho pela loucura da poesia como um cego
A quem a escuridão dos dias já não basta para existir.
E é nessa demência que te invento, sem pretensões ou desvios.
Aqui, na escarpa do meu mundo onde me sento
Tantas vezes quantas o sonho invoque
Oiço as gaivotas que passam na tua rua
Para beijar o Douro.
Ouço-as nas noites frias de Inverno enredadas na intrepidez da tempestade
E nas tardes soltas de Verão esvoaçando na lascívia quente da aragem.
Aqui, neste lugar onde nos invento
Não há solidão, nem dor, nem manhãs gastas pelo cínzeo da cidade adormecida.
Apenas um rochedo branco e firme perdido entre a lividez das horas e a agonia lenta dos dias em que ainda te espero.
É dele que contemplo, absorta, o vaivém das gaivotas na tua rua
E te procuro, incessantemente, no voo agitado e esguio das suas asas.
A secreta viagem termina no exacto momento em que te encontro.
No instante em que as tuas mãos me desprendem o cabelo cingido,
E as nossas bocas, em resfolgo, se ajustam num beijo inteiro e demorado.
E calam, nesse instante, as gaivotas que passam na tua rua para beijar o Douro
Numa calma de azul prata e vertigem contida.
Mudez entrelaçada na noite quando da noite são os sonhos
que ouso encenar no devaneio dos nossos corpos imaginados.
De que verdade são feitos os momentos em que nos invento?
Quantas vezes, preciso repetir o teu nome para saber que existes?
No rasgo do desenlace frio onde te perco
Regressam em bulício as gaivotas que passam na tua rua a beijar o Douro
Em gritos dolentes que ecoam no precipício de um delírio sem retorno.
Caminho pela loucura da poesia como um cego
Quando loucura é amar-te entre a insensatez das palavras
E o largo silêncio dos dias em que já não te tenho.